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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Das coisas que eu não disse

"(...) Nenhuma dessas respostas virou realidade. Nenhuma delas saiu da minha cabeça. Algumas eu imaginei sofrendo, outras rindo. Eu já não tinha mais nada pra dizer porque faltou te dizer tanta coisa desde o início. Eu acho triste, pra mim foi tão importante e você tão grande na minha vida. Eu acho triste se o seu coração tava tão fechado e se eu desviei tanto de cada muro que você levantou. É triste. Você escolheu minimizar o que houve e o que eu sinto. Eu escolhi não ser dramática ou cruel. Eu quero soltar o rancor no universo, em qualquer lugar que não seja dentro de mim ou contra você."



É da Renata, mais um dos muitos clichês. Mas podia ser meu, teu....


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Eu ainda acredito

"Você é o meu tipo de garota do cinema. De cena após cena. De câmera nos trilhos e silêncio no estúdio. De gemidos abafados na última fileira do filme. Dá até pra antecipar a sua timidez no primeiro encontro. Com mãos se esbarrando lentamente no descanso das poltronas. Entrelaçando os dedos conforme os quadros se sucedem e alguém nos manda fazer silêncio porque o coração armou uma escola de samba e agora bate forte. Você é o meu tipo de primeiro beijo esperado. Pra dizer que eu já sabia que era você no momento em que pus os olhos e pude ver que você era tão complicada quanto eu – e não ligaria pra isso. Que você encararia as coisas com a máxima de que nós dois nos encontramos no mundo por conta de alguma força que vai além da nossa compreensão. Pra dizer que as nossas conversas estão fadadas ao silêncio quando nenhum dos dois souber o que dizer e isso não incomoda. Você é toda cheia de dedos e sinais que se atrapalham na tentativa de dizer alguma coisa. Estudou um pouco sobre fantasia e vive por aí contando histórias. E me encantando. Você é um mistério mal resolvido – e espero que continue assim. Com esse quê de que pode ser real sem perder essa aura de ilusão que me mantém consciente de que pode ser tudo um sonho. E é por isso que eu volto ao cinema em todas as sessões coruja de comédias românticas. Pra ver se eu esbarro numa garota tão perdida quanto eu no seu próprio mundo. Pra ver se eu encontro alguém que se apaixona tanto pelas histórias dos filmes a ponto de querer vivê-las a flor da pele como eu. Pra ver se dessa vez eu sento do lado de uma poltrona ocupada e recebo um sorriso desconhecido, mas ainda assim bonito. Mesmo que acendam as luzes. Mesmo que baixem os créditos finais. Mesmo que esvaziem as salas, eu ainda acho que um amor tão grande e tão bonito assim exista além das telas do cinema. O meu tipo de garota também acharia."


_ Daniel Oliveira

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Mãos cheias de nada

E finalmente não havia mais. Não havia mais medo de perder. Não tinha duvidas de estar fazendo a coisa certa. Estava só fazendo o que deveria ser feito. Colocando as coisas no lugar. Recolocando. Não havia mais angustia, não tinha mais dor. Não tinha mais aquele pensamento que ficava indo e vindo e finalmente dava pra dormir. Pra dormir uma noite inteira sem acordar de pouco em pouco no susto, achando que alguma noticia chegou e enquanto dormia, essa se perdeu. Já chega de tanta dedicação ao que não se tem mais. Tudo que podia ser feito foi feito. Tudo que podia ser dito e até o que não devia foi dito. Agora a ordem é cuidar do que se têm. Cuidar do que ficou e do que chegou depois. O tempo é curto e se esvai. É preciso estar atento pra não perder por entre os dedos o tempo que pode se tornar momento, tempo que pode ser instante, tempo que deve ganhar valor.

‘perderá os pombos das mãos se tentar pegar os que estão voando’.”


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A arte de perder

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.


Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.


Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.


Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.


Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.


– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


Elisabeth Bishop _ Tradução de Paulo Henriques Britto

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Oração

Estou rezando pra Deus. Rezando com todas as forças que tenho e com toda fé que existe dentro de mim. Estou rezando com todo meu espírito para que só coisas boas aconteçam. Estou rezando pro mundo mudar, pra Terra girar e pra vida só mostrar seu lado alegre, mostrar seu lado mais feliz. Quem sabe assim eu fico mais alegre e mais feliz. Quem sabe assim todos mudamos um pouco e recuperamos nossa esperança em tudo. Estou em oração pra que aconteça uma coisa boa em especial. Estou em oração pra que seja uma surpresa boa. Estou em oração pra ser mais feliz.

_Eu

"Riding on this know-how. Never been here before. Peculiarly entrusted. Possibly that's all. Is history recorded? Does someone have a tape? Surely, I'm no pioneer. Constellations stay the same. Just a little bit of danger. When intriguingly. Our little secret. Trusts that you trust me 'Cause no one will ever know. That this was happening. So tell me why you listen when nobody's talking... What is there to know? All this is what it is. You and me alone. Sheer simplicity"

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Deixar ir

"Só que aí eu acabei mudando. E foi mudança aos poucos, porque até hoje me dou conta de coisas minhas que já não estão mais lá e, quem roubou, eu jamais vou saber. O sorriso mudou e a vontade de sorrir pra qualquer pessoa também, graças a Deus. Foi por sorrir tanto de graça que eu paguei tão caro por todas as coisas que me aconteceram. Às vezes me pego olhando ao meu redor e vendo tanta menina parecida comigo. Tanto sentimento gritando de bocas caladas e escorrendo de peles secas. Tanta coisa acontece com a gente. Tanta gente passa pela gente, mas tão pouca gente realmente fica. E eu sei que, talvez, eu tivesse que ficar triste. Talvez eu tivesse que continuar secando lágrimas, abraçando o vento e rindo no vácuo, mas o fato é que eu não consigo. Eu não consigo mais ser triste só para mostrar que um dia eu fui - ou achei que tivesse sido - feliz. Aprendi com os meus próprios erros que sofrer não torna mais poético, chorar não deixa mais aliviado e implorar não traz ninguém de volta. Aprendi também que por mais que você queria muito alguém, ninguém vale tanto a pena a ponto de você deixar de se querer. Eu que gritei para tantas pessoas ficarem, hoje só quero mesmo é que elas sumam de uma vez por todas. E em silêncio, que é pra ninguém ter porque se lamentar."










-Tati B.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Inteiros

O otimismo do amor me permite acreditar que a sua ausência fragmentada é uma possibilidade amável e provisória de tê-la continuamente presente em vários lugares: ao mesmo tempo:
- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia de algum lugar que não existe, imagino eu).
E assim… Procuro, louco, catar um pouco do que você me oferece inocentemente todos os dias. Ora, seguro as suas mãos frias e peço que me levem para o lugar mais distante e quente do mundo: seus olhos quando miram um ponto de fuga. Corra!
Ora, encontro os seus lábios finos e tento penetrá-los com minha boca, com meu sexo, com meus poemas. Porra! (desculpa!)

poesia é fuga de quem foge de cima de si
e na fuga deixa escapar
as palavras mais doídas, mais moídas, mais bonitas…

Ora, esbarro com as suas verdades, e elas me confundem e elas se fundem neste cenário tão incoerente quanto indecifrável que é o coração de quem ama. Bata!
Ora, vejo as horas apenas passarem, (que oração?) sem querer debater com o tempo por que ele ainda vive com mania de me privar da sua companhia. Suma!
Ora, encosto a palma da minha pluma na pele macia das suas costas tatuadas: tento decifrar o que as palavras ali escritas tentam não-dizer: e dizem tanto: e nada digo: e logo escrevo com a tinta invisível da saudade: outrora a gente junta todas as nossas all-sências.
Mas onde?
- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia novamente de algum lugar que continua não existindo, imagino eu continuamente)
Às vezes, soluço
Às vezes, só ouço a sua voz só, entrecortada, seguida de um silêncio inter-calado.
E só.
Ela me faz bem. Ele me conforta. Os dois declaram a sua ausência fragmentada. Tolos! Sua ausência é inteiramente completa.
Quem está aos pedaços é o que fomos. Estamos hospedados um no vazio do outro.
outrora a gente se junta e se completa, feito ausência fragmenta;

i
n
t
e
i
r
o
s,
pour toujours.

[fragmentos de ausência; antônio]

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Não há antibiótico contra a paixão

Aí, a coisa se espalha como a gripe espanhola e ficamos então assim, sem saber direito pra que lado ir, quem seguir, aos vinte e poucos anos tão românticos e amargurados quanto nossos pais. É tão ridículo assim alguém se apaixonar? Olha, baseado nos sintomas tradicionais que andei desenvolvendo nas últimas semanas, eu não usaria exatamente a palavra “ridículo”, a não ser que você ache todos os hospitalizados uns patéticos fingidos. Mas quando as coisas não rolam, quando não há qualquer sinal de correspondência, a sensação é mais ou menos um saco, como um resfriado mal curado. Você não consegue ir a lugar algum sem espirrar sua doença na cara dos outros. Não há antibióticos contra a paixão.


Gabito Nunes

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Los Amorosos

 "Os amorosos calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais perturbador, o mais insuportável.
Os amorosos buscam,
os amorosos são os que abandonam,
são os que modificam, os que esquecem.
Seu coração lhes diz que nunca encontrarão,
não encontram, buscam.
Os amorosos andam como loucos
porque estão sós, sós, sós,
entregando-se, doando-se a cada instante,
chorando porque não salvam o amor.
Preocupa-lhes o amor. Os amorosos
vivem para o dia, não podem fazer mais, não sabem.
Sempre estão indo,
sempre, a alguma parte.
Esperam,
não esperam nada, mas esperam.
Sabem que nunca hão de encontrar.
O amor é o adiamento eterno,
sempre o passo seguinte, o outro, o outro.
Os amorosos são os insaciáveis,
os que sempre - felizmente - hão de estar sozinhos..."


Tradução livre de um trecho do poema "Los amorosos", de Jaime Sabines.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Se um dia seremos inteiros



E te imagino em poses e sorrisos, voz grave e cabelos desgrenhados, preso nas minhas fantasias mais loucas e movimentadas. Numa delas sou um bichinho invisível, com asas, que adentra tua casa e te observa em segredo. Faço o contorno do teu corpo todo com os olhos, parada contra a parede do teu quarto, imóvel, enquanto tu te atiras na cama. Cansado. Tu olhas para o teto imaginando mil coisas, memórias, compromissos, desejos, saudades. Te fito com dor. A luz do abajur faz sombra na tua pilha de livros, que folheei um dia e quis pedir emprestado mesmo sabendo que não havia intimidade para pedidos. Por razões que desconheço, nossas aproximações foram sempre pela metade. Interrompidas. Um passo para a frente e cem para trás. Retrocessos. Descaminhos. Procuro sinais de algum amor teu. Vestígios de noites passadas. Tu não me vês, estou incógnita a te observar. Como sempre estive, olhando pelas janelas, de longe, coração apertado. Nós poderíamos ser amigos e trocar confidências. Assistiríamos a filmes, taça de vinho nas mãos, e tu me detalharias as tuas paixões e desatinos. Nós poderíamos ser amantes que bebem champanhe pela manhã aos beijos num hotel em Paris. Caminharíamos pela beira do Sena, e eu te olharia atenta, numa tentativa indisfarçável de gravar o momento e guardá-lo comigo até o fim dos meus dias. Ou poderíamos ser apenas o que somos, duas pessoas com uma ligação estranha, sutilezas e asperezas subentendidas, possibilidades de surpresas boas. Ou não. Difícil saber. Bato minhas asas em retirada. Tu dormes, e nos teus sonhos mais secretos, não posso entrar. Embora queira. À distância, permaneço te contemplando. E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro. Porque tu és o único que habita a minha solidão.


Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Você

"Que palavra é você? Das mais bonitas às mais doloridas, não encontro a que lhe caiba. Preciso de uma palavra que lhe descreva, de uma palavra que lhe pertença. Preciso de uma palavra insone, de uma palavra que silencie. Preciso de uma palavra que seja fome, mas que também seja afeto. Preciso de uma palavra que morda, mas que também que sopre. Preciso de uma palavra que não se deixe levar por meus pronomes possessivos, mas que ainda assim, seja minha."
Briza M.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Regências


de vez em quando, mudar algumas regências verbais (aliás, a própria palavra regência deveria ser mudada, já que o verbo não é o rei das palavras): libertar-se em e não libertar-se de; viajar algo e não viajar em ou por algo; apaixonar alguém e não apaixonar-se por alguém; sonhar algo e não sonhar com algo; você me gosta, querendo dizer que eu gosto de você, como no francês ou no espanhol (tu me plais, esto me gusta); você me falta, querendo dizer que eu sinto sua falta, como em francês (tu me manque) e, finalmente, e sem vergonha, deslocar alguns pronomes repressores: nada de "eu o amo". já que é para dizer, digamos logo: "eu amo ele".

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

cansaço

"Eu quase ouvi sua voz me pedindo para voltar. Quase. Eu vi seus lábios, seu rosto sujo, sua barba, seus dedos, seus olhos e quase ouvi isso tudo pedindo a minha volta. Mas você não pediu. Você engoliu a fumaça e a cuspiu, longe de mim. Você apertou a mão contra o jeans, puxou a jaqueta, mudou a direção do desejo, mas não do olhar. E eu pensei em pedir também. Pedir alguma coisa, alguma ação, qualquer coisa. Pedir que você me segurasse forte, beijasse meu corpo, me prendesse contra a parede, tirasse a minha roupa. Pedir para que puxasse brutalmente meus cabelos, segurasse as minhas pernas e me fizesse arfar. Você olhou para o meu rosto cansado, quase nu, mas não tentou se desfazer do resto de máscara. Eu parei de te olhar, murmurei alguma coisa, mexi no meu cabelo. Mas você não me pediu para voltar. Você não tirou aquele resto de máscara, não pousou a mão sobre o meu rosto. Não houve sexo, nem revelações. Mantive mil verdades guardadas em mim, exatamente como você. Só precisávamos de uma verdade revelada. Mas você não me pediu para voltar."

e entao eu fui embora....

— (a-u-e)



Porque não havia mais nada a ser dito e nenhum tinha mais a certeza de que queria pedir pro outro voltar. Porque quando o desgaste é tanto e tão grande as vontades são suprimidas e o que expressa é somente o cansaço. Cru. De insistir em algo que não faz mais sentido.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Você têm medo de que?

"Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. (...) Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.

Fabricio Carpinejar


sábado, 27 de janeiro de 2018

Quase amor


Quase amores não existem. E não existem mesmo. Mas existem. Quase amor é aquele ensejo de romance que surgiu com sabor de sorvete de baunilha. Você foi dar uma colherada com gosto e SPLASH! Ao levar o prazer até a boca, o doce escorreu e espatifou, melecando sua calça jeans. Todo mundo passa por isso, quer queira, quer não. Histórias de quase amor não lotam pré-estreias em Los Angeles, mas na vida sem bilheterias goleiam impiedosamente os contos de amor concreto. Um amor que não passa do primeiro beijo porque o cara é noivo, é um quase amor. Um romance que não chegou no sexo, pois uma das partes embarcou com urgência para Londres sem aviso prévio, é quase amor também. Uns duram cinco anos, outros cinco meses. Raros, cinco dias. Contudo – de fato e amargamente – quase amores se dão como formigas em pote de mel. Por isso quase amores existem e não existem. Talvez não tivera beijo, ou não houve sexo, quiçá um abraço de urso. Quase amores são cheios da falta de café na cama, juras de amor eterno, cena de ciúme, mordida no queixo, lutinha no carpete, banho de espuma, briga na casa da sogra, despedida em rodoviária, confusão de chinelos, chimarrão no meio-fio, troca de alianças, beijo na testa, orgasmo com choro e velhice compartilhada. E se engana quem pensa que os quase amores são aqueles impossíveis ou proibidos, do tipo Janet Dailey. Amores por um triz têm motivos circunstanciais. Amor que é proibido, mas os dois se correspondem, já é amor completo, mesmo que imperfeito. Quase amor é quando um dos lados se doa pela metade, quando tanto. Aí é pretérito. Bem mais que imperfeito. Quase amor é um lugar estranho e ao mesmo tempo familiar. Aconchegante e inóspito. Enérgico e gélido. É como quando você tem um déjà vu ao entrar numa rua ladrilhada dessas de cidade histórica. Um lugar aonde você jamais esteve, porém consulta sua memória rígida buscando reconhecer árvores, calçadas e telhados. Uma saudade abstrata pressiona o peito. E quase dói.


Gabito Nunes





Mas na verdade dói sim.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

the queen of something new

"Tem sorriso sobrando no mundo. Tem amor pedindo abrigo. Tem coração vazio, esperando um hóspede pra trazer ainda mais sorrisos. Tem borboletas sem estômagos pra morar. Tem páginas em branco esperando histórias lindas pra contar. Tem boas lembranças esperando pra existir. Tem poetas com sonhos pra escrever. Tem as coisas simples que não viram notícia no jornal, mas se eternizam na mente de quem sabe viver o bonito da vida. Porque se eu tropeço nas coisas feias, as coisas lindas me levantam e me fortalecem. E me enchem de vontade de continuar andando. Acreditando. E seguir adoçando o verbo viver."

_Karla Tabalipa.






















 I’ll take the night but I want the morning, I want the morning. I’ll dream tonight but I want the morning, I want the morning. I know your eyes but I want the morning, I want the morning. We were sitting by the riverside, there was no one but me and you. You were looking like the universe, I was watching you the whole goddamn way through. We talk on the phone oh but I don’t know what I can say anymore, only a sound for you. In some other dream, oh don’t you wanna be the queen of something new? In some other dream, I do. Call it obscene, oh but there has never been another one quite like you. Somebody tell me it is true.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Amoraterapia


"Não importa onde você parou ou em que momento da vida você cansou. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo. É renovar as esperanças. E eu pergunto: sofreu muito nesse período? Foi a dor do aprendizado... Chorou muito? Foi a limpeza da alma... Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las... Acreditou que tudo estava perdido? Era o início da tua melhora...
Pois é... agora é hora de reiniciar, de encontrar prazer nas coisas simples... Um corte de cabelo, um novo curso ou aquele velho desejo de aprender a pintar, desenhar, dominar o computador. Olha quantos desafios, quantas coisas novas te esperando! Está se sentindo sozinho? Besteira, tem tanta gente que você afastou com o seu período de isolamento. Tem tanta gente esperando apenas um sorriso para chegar perto de você.
Recomeçar!! Hoje é um bom dia para começar novos desafios. Onde você quer chegar? Sonhe alto! Queira o melhor do melhor! Pensando assim, trazemos aquele que desejamos. Se pensarmos pequeno, coisas pequenas teremos. Tire o dia para uma faxina mental! Jogue fora tudo que te prende ao passado: fotos, roupas, papel de bala, ingressos de cinema, bilhetes de viagens e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados. Esvazie seu coração! Fique pronto para a vida, para um novo amor. Lembre-se: somos apaixonáveis, somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes. Afinal de contas, nós somos o amor. "

Carlos Drummond de Andrade





Como foi que voce disse? Ah, lembrei: amoraterapia. Pratique amoraterapia. Ame.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Expectativas

Não reprime nem me abafa,
Isso não cabe nesse caso
Não prende em acordos, não faz ligações,
Não embaça
Não precise tanto em mim, não me conte como certo.
O incerto é mais real, é mais próximo e perturbante
Vai que tudo troca, muda e vira,
Isso acontece o tempo todo.

Expectativas é um negócio desleal mesmo. A música tá certa, bem por fim.



sábado, 20 de janeiro de 2018

Sobre a curva do teu riso fazendo curva no meu

 Quando eu te der a mão você vai me ler inteira. E não tenho medo de ser água rasa pra você, não pra você. Porque teu olho cheio de estrelas e orvalho não me julga. Você me abraça inteira, não poda meu drama, não limita minha melancolia, não barra minha loucura. Você me aceita monstro porque a nós coube o segredo de ser, e a consciência ferina dessa existência. Mas não quero falar de filosofia agora. Quero te contar que você me inspira poesia e facas, cigarros e asas. Quero consertar aquilo que disse sobre a inutilidade de existir, eu esbarrei em você meu bem, tinha que ser assim. E rimo, sorrindo. E depois choro, você é grande demais pra caber no papel, na fotografia, nos meus braços pequenos. Você se abraça de leve, com preguiça, querendo se deixar cair, mas eu quero te apertar forte e te levar pro mar. Pra ver o sol nascer e acreditar que nasce por um motivo. Metafísico, biológico, místico, ou somente - lá vem minha rima fraca, boba, e tua - teu sorriso."


Sobre a curva do teu riso fazendo curva no meu. Clara D

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Recomeço

"A saudade simplesmente foi embora. Passou. Não existe mais. O que antes rendia-me inúmeras lágrimas, hoje não me faz chorar. A tua ausência não me deixa mais tão vazia, e o teu cheiro não está mais em mim. Nossas fotografias empoeiradas na estante, ainda lutavam e tentavam trazer as lembranças de volta à tona, porém nada é como antes. Você mudou, e junto disso fui obrigada a deixar de me importar tanto contigo, e com tudo o que um dia fomos, ou vivemos. Mas é assim. Sempre é. A gente sempre se decepciona com quem menos espera. E as vezes quem achamos que vai nos derrubar, é quem nos levanta quando todos vão embora. Nós nos enganamos. Assim como me enganei em relação a você. Pensei, e cheguei a acreditar que dessa vez seria diferente, e que você havia chegado pra ficar. Normal, a vida sempre dá um jeito de nos derrubar. Cabe a nós sabermos recomeçar." 


- P.