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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Deixar ir

"Só que aí eu acabei mudando. E foi mudança aos poucos, porque até hoje me dou conta de coisas minhas que já não estão mais lá e, quem roubou, eu jamais vou saber. O sorriso mudou e a vontade de sorrir pra qualquer pessoa também, graças a Deus. Foi por sorrir tanto de graça que eu paguei tão caro por todas as coisas que me aconteceram. Às vezes me pego olhando ao meu redor e vendo tanta menina parecida comigo. Tanto sentimento gritando de bocas caladas e escorrendo de peles secas. Tanta coisa acontece com a gente. Tanta gente passa pela gente, mas tão pouca gente realmente fica. E eu sei que, talvez, eu tivesse que ficar triste. Talvez eu tivesse que continuar secando lágrimas, abraçando o vento e rindo no vácuo, mas o fato é que eu não consigo. Eu não consigo mais ser triste só para mostrar que um dia eu fui - ou achei que tivesse sido - feliz. Aprendi com os meus próprios erros que sofrer não torna mais poético, chorar não deixa mais aliviado e implorar não traz ninguém de volta. Aprendi também que por mais que você queria muito alguém, ninguém vale tanto a pena a ponto de você deixar de se querer. Eu que gritei para tantas pessoas ficarem, hoje só quero mesmo é que elas sumam de uma vez por todas. E em silêncio, que é pra ninguém ter porque se lamentar."










-Tati B.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Conversa com o coração


Se aquieta, vai. Garanto que tudo não passa de mais uma daquelas suas crises de meio-amor e que isso vai passar logo. Se não for nesse gole, passa no outro.  Se inquieta, vai. Essa agonia vai subindo len-ta-men-te pela sua garganta acima. Deu um nó, então desata. Não consigo. Então desanda logo de uma vez. Já revirou tudo hoje e botou tudo pra fora. Já sufocou e se deixou de lado por um tempo. Só por um tempo. Quase nada. De-li-ca-da-men-te. Já deu a volta por trás e abriu um sorriso. Mas não sabe mesmo como é que arrumou essa confusão toda. Não precisa de pressa, só não precisa me deixar sozinho agora. Isso assusta. Acho mesmo é que você brinca comigo. Se melhorar, entrega. Se entregar, estraga. Mas bem que você podia me dizer o que você anda pensando. Facilitaria as coisas pra nós dois ao mesmo tempo. E sem. Interrupções demais. A pergunta importante pode ser respondida com sim ou não. É bem fácil pra você. Mas você é essa confusão ambulante, que não se deixa resolver. Você me causa dor, e uma espécie de azia que não deveria existir. Sabe esse controle besta que você tem sobre mim – e como sabe. Você não gosta de ordem e, por consequência, me deixa uma bagunça. Eu sou uma bagunça. É o que todos dizem na hora de dar adeus ou até logo. Algumas até ficam aqui pra tentar me consertar, mas não sabem que o problema é com você. Você se desorienta e me leva junto. Você se engana e me venda os olhos também. Você sempre me deixa em cima do muro. Ou se arruma de vez, ou me resolve o problema. Mas todos nós sabemos que não adianta resistir muito ao que você faz no meio dessa confusão toda. Eu só disfarço fingindo seguir uma linha reta de raciocínio. Com as roupas do avesso e um “eu te amo” nas mãos. Trocando os meus olás por alôs de madrugada e alguns serás de quem não tem a menor certeza do que está fazendo. Você ri e eu bato o pé. Você freia e a culpa é toda sua. É que você me deixa trôpego e desarrumado, coração.
_Autor desconhecido

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Inteiros

O otimismo do amor me permite acreditar que a sua ausência fragmentada é uma possibilidade amável e provisória de tê-la continuamente presente em vários lugares: ao mesmo tempo:
- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia de algum lugar que não existe, imagino eu).
E assim… Procuro, louco, catar um pouco do que você me oferece inocentemente todos os dias. Ora, seguro as suas mãos frias e peço que me levem para o lugar mais distante e quente do mundo: seus olhos quando miram um ponto de fuga. Corra!
Ora, encontro os seus lábios finos e tento penetrá-los com minha boca, com meu sexo, com meus poemas. Porra! (desculpa!)

poesia é fuga de quem foge de cima de si
e na fuga deixa escapar
as palavras mais doídas, mais moídas, mais bonitas…

Ora, esbarro com as suas verdades, e elas me confundem e elas se fundem neste cenário tão incoerente quanto indecifrável que é o coração de quem ama. Bata!
Ora, vejo as horas apenas passarem, (que oração?) sem querer debater com o tempo por que ele ainda vive com mania de me privar da sua companhia. Suma!
Ora, encosto a palma da minha pluma na pele macia das suas costas tatuadas: tento decifrar o que as palavras ali escritas tentam não-dizer: e dizem tanto: e nada digo: e logo escrevo com a tinta invisível da saudade: outrora a gente junta todas as nossas all-sências.
Mas onde?
- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia novamente de algum lugar que continua não existindo, imagino eu continuamente)
Às vezes, soluço
Às vezes, só ouço a sua voz só, entrecortada, seguida de um silêncio inter-calado.
E só.
Ela me faz bem. Ele me conforta. Os dois declaram a sua ausência fragmentada. Tolos! Sua ausência é inteiramente completa.
Quem está aos pedaços é o que fomos. Estamos hospedados um no vazio do outro.
outrora a gente se junta e se completa, feito ausência fragmenta;

i
n
t
e
i
r
o
s,
pour toujours.

[fragmentos de ausência; antônio]

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Necessidade



A gente se perde. Por medo, por correria no dia-a-dia. Se perde por querer alcançar tudo ao mesmo tempo, com ansiedade. Acontece com quem tem sonhos, com quem tem planos, com quem não tem nada e com quem tem tudo. A rotina esmaga e a gente se perde. A paixão vira amor e a gente se perde. O trabalho que não é exatamente o que você gostaria, ou o local onde você pretendia estar. A carga horária aumentada, em busca de nem sei o quê.
Basta um momento pra entender que na vida, nada é pra sempre, tudo está em movimento o tempo todo. Toda pequena mudança desestabiliza, desarma.
Perder-se, talvez seja necessário. Para reprogramar, priorizar. Perder-se na loucura do dia-a-dia, talvez seja a unia forma de encontrar o que realmente importa. Você.


"Quero te dizer que ter um amor não basta. Assim como ter um corpo em dia não basta. Assim como ser reconhecida no trabalho não basta. Assim como ter um cabelo que não arrepia em dias chuvosos não basta. Assim como realizar todos os sonhos do mundo não basta. E nunca, nunca vai bastar. A gente quer mais, sempre mais. O pouco não contenta. O mais ou menos não convence. O alguma coisa não enche a barriga, o coração, os poros, a vida. Escrevo para você que acha que ter um namorado resolve todos os problemas do mundo. Não se engane, por favor, não se engane. É claro que existe companheirismo, cumplicidade, tesão, amor, amizade, parceria, admiração. É claro que existem todos os prós do mundo. Mas também existe briga, cara feia, troca de farpas e o lado sujo daquilo que a gente sempre quis um dia. Existe a chatice, o egoísmo humano, os defeitos em luzes neon piscando pela cidade. Quero te dizer que muito mais importante que ter alguém é ter paz. Muito mais importante que ter alguém é saber lidar com você mesma. É se gostar, se curtir, se suportar, se superar todo dia. É gostar do que vê e do que não é visível aos olhos. É engolir e sorrir para a própria companhia. Muito mais importante que ter alguém é estar todo dia verdadeiramente apaixonada pelo “alguém” mais importante da sua vida: você mesma."





Clarice Correa

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Se eu ficar

"Um dia você pode de repente passar sem me ver e eu vou querer abanar, gritar seu nome, bater meu carro num poste ou ultrapassar o sinal vermelho como uma louca só para chamar a sua atenção.
Você vai passar como se nunca tivéssemos nos visto, dividido a mesma cama, o mesmo café, os mesmos talheres e toalhas. Como se o ar fosse mais pesado que nós e a nossa história, uma história que naquele ponto você já nem lembrará mais.
E o que me dá medo é que não quero virar um borrão, um simples sopro na sua vida. Uma imagem distorcida na sua memória. Pelo menos não se esqueça a cor dos meus olhos ou a minha mania de sentar com as pernas cruzadas como índio no café da manhã.
Lembre-se alguma coisa além do meu nome.
Eu não quero ter que estragar um carro só para ver se você ainda lembra de mim. Eu não quero que a gente se perca para descobrirmos que nunca nos achamos; vai ser triste, e somente eu vou saber. Você vai passar e só… O problema é que eu sempre vou ficar.

_CAMILA COSTA

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Cometa bobagens

"Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta. Cometa bobagens. Não compre manual para criar os filhos, para prender o gozo, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não suporta mais não ser incomodado. Use roupas com alguma lembrança. Use a memória das roupas mais do que as próprias roupas. Desista da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem. Procure falar o que não vem à cabeça. Cantarolar uma música ainda sem letra. Deixe varrerem seus pés, case sem namorar, namore sem casar. Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar. Leve uma árvore para passear. Chore nos filmes babacas, durma nos filmes sérios. Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras. Não diga “eu sei, eu sei”, quando nem ouviu direito. Almoce sozinho para sentir saudades do que não foi servido em sua vida. Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para ser os outros em você. Transforme o sapato em um barco, ponha-o na água com a sua foto dentro. Não arrume a casa na segunda-feira. Não sofra com o fim do domingo. Alterne a respiração com um beijo. Volte tarde. Dispense o casaco para se gripar. Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto. Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. Não chore para chantagear. Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal. Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade."

- Carpinejar.   

sábado, 27 de janeiro de 2018

Quase amor


Quase amores não existem. E não existem mesmo. Mas existem. Quase amor é aquele ensejo de romance que surgiu com sabor de sorvete de baunilha. Você foi dar uma colherada com gosto e SPLASH! Ao levar o prazer até a boca, o doce escorreu e espatifou, melecando sua calça jeans. Todo mundo passa por isso, quer queira, quer não. Histórias de quase amor não lotam pré-estreias em Los Angeles, mas na vida sem bilheterias goleiam impiedosamente os contos de amor concreto. Um amor que não passa do primeiro beijo porque o cara é noivo, é um quase amor. Um romance que não chegou no sexo, pois uma das partes embarcou com urgência para Londres sem aviso prévio, é quase amor também. Uns duram cinco anos, outros cinco meses. Raros, cinco dias. Contudo – de fato e amargamente – quase amores se dão como formigas em pote de mel. Por isso quase amores existem e não existem. Talvez não tivera beijo, ou não houve sexo, quiçá um abraço de urso. Quase amores são cheios da falta de café na cama, juras de amor eterno, cena de ciúme, mordida no queixo, lutinha no carpete, banho de espuma, briga na casa da sogra, despedida em rodoviária, confusão de chinelos, chimarrão no meio-fio, troca de alianças, beijo na testa, orgasmo com choro e velhice compartilhada. E se engana quem pensa que os quase amores são aqueles impossíveis ou proibidos, do tipo Janet Dailey. Amores por um triz têm motivos circunstanciais. Amor que é proibido, mas os dois se correspondem, já é amor completo, mesmo que imperfeito. Quase amor é quando um dos lados se doa pela metade, quando tanto. Aí é pretérito. Bem mais que imperfeito. Quase amor é um lugar estranho e ao mesmo tempo familiar. Aconchegante e inóspito. Enérgico e gélido. É como quando você tem um déjà vu ao entrar numa rua ladrilhada dessas de cidade histórica. Um lugar aonde você jamais esteve, porém consulta sua memória rígida buscando reconhecer árvores, calçadas e telhados. Uma saudade abstrata pressiona o peito. E quase dói.


Gabito Nunes





Mas na verdade dói sim.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Sobre as voltas que o mundo dá

Uma magoa muito grande, uma alegria estonteante, amor que nasce, amor que morre. Sentimentos geram mudanças. Quando muda o sentimento, muda a ação, muda a reação, muda a forma de compreender. Muda a forma de entender o mundo da gente. Sentimento faz mudar tanto, que dá até pra se colocar de fora, observar o que a gente anda fazendo e criticar. Muda a ponto de querer refazer esse mundo, a gente muda pra querer fazer tudo ficar melhor, tudo parecer melhor. E isso não significa mais acessível ou mais receptivo. As vezes significa apenas aconchegante – e individual. Sentimentos geram mudanças. É fato. Independente do tipo do sentimento, acho que o mais importante é que essas mudanças tragam felicidade. Paz.




Na verdade a diferença pra mim é só essa, ser mais feliz.