quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Das coisas que eu não disse

"(...) Nenhuma dessas respostas virou realidade. Nenhuma delas saiu da minha cabeça. Algumas eu imaginei sofrendo, outras rindo. Eu já não tinha mais nada pra dizer porque faltou te dizer tanta coisa desde o início. Eu acho triste, pra mim foi tão importante e você tão grande na minha vida. Eu acho triste se o seu coração tava tão fechado e se eu desviei tanto de cada muro que você levantou. É triste. Você escolheu minimizar o que houve e o que eu sinto. Eu escolhi não ser dramática ou cruel. Eu quero soltar o rancor no universo, em qualquer lugar que não seja dentro de mim ou contra você."



É da Renata, mais um dos muitos clichês. Mas podia ser meu, teu....


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Eu ainda acredito

"Você é o meu tipo de garota do cinema. De cena após cena. De câmera nos trilhos e silêncio no estúdio. De gemidos abafados na última fileira do filme. Dá até pra antecipar a sua timidez no primeiro encontro. Com mãos se esbarrando lentamente no descanso das poltronas. Entrelaçando os dedos conforme os quadros se sucedem e alguém nos manda fazer silêncio porque o coração armou uma escola de samba e agora bate forte. Você é o meu tipo de primeiro beijo esperado. Pra dizer que eu já sabia que era você no momento em que pus os olhos e pude ver que você era tão complicada quanto eu – e não ligaria pra isso. Que você encararia as coisas com a máxima de que nós dois nos encontramos no mundo por conta de alguma força que vai além da nossa compreensão. Pra dizer que as nossas conversas estão fadadas ao silêncio quando nenhum dos dois souber o que dizer e isso não incomoda. Você é toda cheia de dedos e sinais que se atrapalham na tentativa de dizer alguma coisa. Estudou um pouco sobre fantasia e vive por aí contando histórias. E me encantando. Você é um mistério mal resolvido – e espero que continue assim. Com esse quê de que pode ser real sem perder essa aura de ilusão que me mantém consciente de que pode ser tudo um sonho. E é por isso que eu volto ao cinema em todas as sessões coruja de comédias românticas. Pra ver se eu esbarro numa garota tão perdida quanto eu no seu próprio mundo. Pra ver se eu encontro alguém que se apaixona tanto pelas histórias dos filmes a ponto de querer vivê-las a flor da pele como eu. Pra ver se dessa vez eu sento do lado de uma poltrona ocupada e recebo um sorriso desconhecido, mas ainda assim bonito. Mesmo que acendam as luzes. Mesmo que baixem os créditos finais. Mesmo que esvaziem as salas, eu ainda acho que um amor tão grande e tão bonito assim exista além das telas do cinema. O meu tipo de garota também acharia."


_ Daniel Oliveira

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Mãos cheias de nada

E finalmente não havia mais. Não havia mais medo de perder. Não tinha duvidas de estar fazendo a coisa certa. Estava só fazendo o que deveria ser feito. Colocando as coisas no lugar. Recolocando. Não havia mais angustia, não tinha mais dor. Não tinha mais aquele pensamento que ficava indo e vindo e finalmente dava pra dormir. Pra dormir uma noite inteira sem acordar de pouco em pouco no susto, achando que alguma noticia chegou e enquanto dormia, essa se perdeu. Já chega de tanta dedicação ao que não se tem mais. Tudo que podia ser feito foi feito. Tudo que podia ser dito e até o que não devia foi dito. Agora a ordem é cuidar do que se têm. Cuidar do que ficou e do que chegou depois. O tempo é curto e se esvai. É preciso estar atento pra não perder por entre os dedos o tempo que pode se tornar momento, tempo que pode ser instante, tempo que deve ganhar valor.

‘perderá os pombos das mãos se tentar pegar os que estão voando’.”


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Não se satisfaça

"Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao desatino. Que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo. Que eu nunca tenha medo nem vergonha de ainda desejar. Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias. Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações e em exigências. Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis. Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros, sobre suas escolhas, sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo. Me permitir ser um pouco insignificante. E, na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicações, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa para mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir. O que eu quero mais? Me escutar e obedecer ao meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, bolos de aniversário e despertador na segunda-feira de manhã. E também quero mais tempo livre. E mais abraços. Pois é, ninguém está satisfeito. AINDA BEM!!!" 

- Martha Medeiros

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Fratura exposta (reduzida e corrigida - pós gesso)



Tanto tempo passou e a menina mudou também. Cresceu, virou mulher. Continua tímida, mas agora essa timidez não é suficiente para fazê-la desistir de algo ou perder alguma coisa. Ela não para mais. Não espera. Não fica mais sonhando acordada. Evita criar fantasias e evita quedas. Continua sendo doce, apesar de tanta gente azeda e tanta amargura no mundo. A garota se descomplicou. Leva a vida mais fácil agora, talvez seja isso que você quer dizer quando escreve – mais madura. A gente muda né. Aprende. Leva tombo e recomeça.  Já te disse que você deveria recomeçar também. Acredito na possibilidade de um final feliz, mas isso não significa mais ficar junto no final. Porque eu sei que não quero pra mim viver nessa agonia. Sempre culpando a distancia e depositando no outro as carências, não quero viver desse jeito, me sentindo culpada por lutar pelo meu sonho. Querendo pular etapas e adiantar coisas. Amor como eu senti por você, acho que não sinto mais.  Teu amor foi libertador, e ao mesmo tempo sufocante. 


_autor desconhecido

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A empatia e o amor


Temos facilidade para amar o outro nos seus tempos de harmonia. Quando realiza. Quando progride. Quando sua vida está organizada e seu coração está contente. Quando não há inabilidade alguma na nossa relação. Quando ele não nos desconcerta. Quando não denuncia a nossa própria limitação. A nossa própria confusão. A nossa própria dor. Fácil amar o outro aparentemente pronto. Aparentemente inteiro. Aparentemente estável. Que quando sofre não faz ruído algum. Fácil amar aqueles que parecem ter criado, ao longo da vida, um tipo de máscara que lhes permite ter a mesma cara quando o time ganha e quando o cachorro morre. Fácil amar quem não demonstra experimentar aqueles sentimentos que parecem politicamente incorretos nos outros, embora costumem ser justificáveis em nós. Fácil amar quando somos ouvidos mais do que nos permitimos ouvir. Fácil amar aqueles que vivem noites terríveis, mas na manhã seguinte se apresentam sem olheiras, a maquiagem perfeita, a barba atualizada. É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado. Nos cafés, após o cinema, quando se pode filosofar sobre o enredo e as personagens com fluência, um bom cappuccino e pão de queijo quentinho. Nos corredores dos shoppings, quando se divide os novos sonhos de consumo, imediato ou futuro. É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nos encontros erotizados, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. E fala o tempo todo do seu drama com a mesma mágoa. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja. Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando até a própria alma parece haver se retirado. Difícil é amar quando já não encontramos motivos que justifiquem o nosso amor, acostumados que estamos a achar que o amor precisa estar sempre acompanhado de explicação. Difícil amar quando parece existir somente apesar de. Quando a dor do outro é tão intensa que a gente não sabe o que fazer para ajudar. Quando a sombra se revela e a noite se apresenta muito longa. Quando o frio é tão medonho que nem os prazeres mais legítimos oferecem algum calor. Quando ele parece ter desistido principalmente dele próprio. Difícil é amar quando o outro nos inquieta. Quando os seus medos denunciam os nossos e põem em risco o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar fragilidade. Quando a exibição das suas dores expõe, de alguma forma, também as nossas, as conhecidas e as anônimas. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, para caminhar ao seu encontro. Difícil é amar quando o outro repete o filme incontáveis vezes e a gente não aguenta mais a trilha sonora. Quando se enreda nos vícios da forma mais grosseira e caminha pela vida como uma estrela doída que ignora o próprio brilho. Quando se tranca na própria tristeza com o aparente conforto de quem passa um feriadão à beira-mar. Quando sua autoestima chega a um nível tão lastimável que, com sutileza ou não, afasta as pessoas que acreditam nele. Quando parece que nós também estamos incluídos nesse grupo. Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja o tempo em que o outro mais precise se sentir amado. Para entender, basta abrirmos os olhos para dentro e lembrar das fases em que, por mais que quiséssemos, também não conseguíamos nos amar. A empatia pode ser uma grande aliada do amor.


Ana Jácomo 



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A arte de perder

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.


Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.


Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.


Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.


Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.


– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


Elisabeth Bishop _ Tradução de Paulo Henriques Britto

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Oração

Estou rezando pra Deus. Rezando com todas as forças que tenho e com toda fé que existe dentro de mim. Estou rezando com todo meu espírito para que só coisas boas aconteçam. Estou rezando pro mundo mudar, pra Terra girar e pra vida só mostrar seu lado alegre, mostrar seu lado mais feliz. Quem sabe assim eu fico mais alegre e mais feliz. Quem sabe assim todos mudamos um pouco e recuperamos nossa esperança em tudo. Estou em oração pra que aconteça uma coisa boa em especial. Estou em oração pra que seja uma surpresa boa. Estou em oração pra ser mais feliz.

_Eu

"Riding on this know-how. Never been here before. Peculiarly entrusted. Possibly that's all. Is history recorded? Does someone have a tape? Surely, I'm no pioneer. Constellations stay the same. Just a little bit of danger. When intriguingly. Our little secret. Trusts that you trust me 'Cause no one will ever know. That this was happening. So tell me why you listen when nobody's talking... What is there to know? All this is what it is. You and me alone. Sheer simplicity"

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A arte de costurar

" Sim, é um mantra diário. Todo dia eu repito a mesmissima coisa na minha cabeça: Não espere nada de ninguém, não confie em palavras e nao se supreenda. Prepare-se para o melhor, espere o pior e receba o que vier. E eu continuo repetindo e repetindo e repetindo." E é isso, é exatamente isso. E hora ou outra como essa tenho que abrir a caixinha de costura e remendar um furinho aqui, um buraquinho ali, que teimam em aparecer. Não deixo que prometam nada pra mim, nem quero que fiquem me devendo algo porque sinceramente não espero que se cumpra. E quando acontece de não se cumprir, la vai eu fazer mais um remendo na descrença e reforçar o mantra. Ainda bem que eu tenho bastante linha e agulha e cada vez que faz um rasgo ou simplesmente desfaz um ponto na costura, eu enxergo e vou na lojinha correndo comprar mais. Remendar é ruim, deixa marquinhas no tecido, mas fortalece e evita que o buraco aumente. Todo mundo deveria aprender a costurar.




"As pessoas e as coisas são aquilo que elas são. Não o que gostaríamos que fossem."

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Deixar ir

"Só que aí eu acabei mudando. E foi mudança aos poucos, porque até hoje me dou conta de coisas minhas que já não estão mais lá e, quem roubou, eu jamais vou saber. O sorriso mudou e a vontade de sorrir pra qualquer pessoa também, graças a Deus. Foi por sorrir tanto de graça que eu paguei tão caro por todas as coisas que me aconteceram. Às vezes me pego olhando ao meu redor e vendo tanta menina parecida comigo. Tanto sentimento gritando de bocas caladas e escorrendo de peles secas. Tanta coisa acontece com a gente. Tanta gente passa pela gente, mas tão pouca gente realmente fica. E eu sei que, talvez, eu tivesse que ficar triste. Talvez eu tivesse que continuar secando lágrimas, abraçando o vento e rindo no vácuo, mas o fato é que eu não consigo. Eu não consigo mais ser triste só para mostrar que um dia eu fui - ou achei que tivesse sido - feliz. Aprendi com os meus próprios erros que sofrer não torna mais poético, chorar não deixa mais aliviado e implorar não traz ninguém de volta. Aprendi também que por mais que você queria muito alguém, ninguém vale tanto a pena a ponto de você deixar de se querer. Eu que gritei para tantas pessoas ficarem, hoje só quero mesmo é que elas sumam de uma vez por todas. E em silêncio, que é pra ninguém ter porque se lamentar."










-Tati B.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Conversa com o coração


Se aquieta, vai. Garanto que tudo não passa de mais uma daquelas suas crises de meio-amor e que isso vai passar logo. Se não for nesse gole, passa no outro.  Se inquieta, vai. Essa agonia vai subindo len-ta-men-te pela sua garganta acima. Deu um nó, então desata. Não consigo. Então desanda logo de uma vez. Já revirou tudo hoje e botou tudo pra fora. Já sufocou e se deixou de lado por um tempo. Só por um tempo. Quase nada. De-li-ca-da-men-te. Já deu a volta por trás e abriu um sorriso. Mas não sabe mesmo como é que arrumou essa confusão toda. Não precisa de pressa, só não precisa me deixar sozinho agora. Isso assusta. Acho mesmo é que você brinca comigo. Se melhorar, entrega. Se entregar, estraga. Mas bem que você podia me dizer o que você anda pensando. Facilitaria as coisas pra nós dois ao mesmo tempo. E sem. Interrupções demais. A pergunta importante pode ser respondida com sim ou não. É bem fácil pra você. Mas você é essa confusão ambulante, que não se deixa resolver. Você me causa dor, e uma espécie de azia que não deveria existir. Sabe esse controle besta que você tem sobre mim – e como sabe. Você não gosta de ordem e, por consequência, me deixa uma bagunça. Eu sou uma bagunça. É o que todos dizem na hora de dar adeus ou até logo. Algumas até ficam aqui pra tentar me consertar, mas não sabem que o problema é com você. Você se desorienta e me leva junto. Você se engana e me venda os olhos também. Você sempre me deixa em cima do muro. Ou se arruma de vez, ou me resolve o problema. Mas todos nós sabemos que não adianta resistir muito ao que você faz no meio dessa confusão toda. Eu só disfarço fingindo seguir uma linha reta de raciocínio. Com as roupas do avesso e um “eu te amo” nas mãos. Trocando os meus olás por alôs de madrugada e alguns serás de quem não tem a menor certeza do que está fazendo. Você ri e eu bato o pé. Você freia e a culpa é toda sua. É que você me deixa trôpego e desarrumado, coração.
_Autor desconhecido

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Inteiros

O otimismo do amor me permite acreditar que a sua ausência fragmentada é uma possibilidade amável e provisória de tê-la continuamente presente em vários lugares: ao mesmo tempo:
- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia de algum lugar que não existe, imagino eu).
E assim… Procuro, louco, catar um pouco do que você me oferece inocentemente todos os dias. Ora, seguro as suas mãos frias e peço que me levem para o lugar mais distante e quente do mundo: seus olhos quando miram um ponto de fuga. Corra!
Ora, encontro os seus lábios finos e tento penetrá-los com minha boca, com meu sexo, com meus poemas. Porra! (desculpa!)

poesia é fuga de quem foge de cima de si
e na fuga deixa escapar
as palavras mais doídas, mais moídas, mais bonitas…

Ora, esbarro com as suas verdades, e elas me confundem e elas se fundem neste cenário tão incoerente quanto indecifrável que é o coração de quem ama. Bata!
Ora, vejo as horas apenas passarem, (que oração?) sem querer debater com o tempo por que ele ainda vive com mania de me privar da sua companhia. Suma!
Ora, encosto a palma da minha pluma na pele macia das suas costas tatuadas: tento decifrar o que as palavras ali escritas tentam não-dizer: e dizem tanto: e nada digo: e logo escrevo com a tinta invisível da saudade: outrora a gente junta todas as nossas all-sências.
Mas onde?
- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia novamente de algum lugar que continua não existindo, imagino eu continuamente)
Às vezes, soluço
Às vezes, só ouço a sua voz só, entrecortada, seguida de um silêncio inter-calado.
E só.
Ela me faz bem. Ele me conforta. Os dois declaram a sua ausência fragmentada. Tolos! Sua ausência é inteiramente completa.
Quem está aos pedaços é o que fomos. Estamos hospedados um no vazio do outro.
outrora a gente se junta e se completa, feito ausência fragmenta;

i
n
t
e
i
r
o
s,
pour toujours.

[fragmentos de ausência; antônio]

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Não há antibiótico contra a paixão

Aí, a coisa se espalha como a gripe espanhola e ficamos então assim, sem saber direito pra que lado ir, quem seguir, aos vinte e poucos anos tão românticos e amargurados quanto nossos pais. É tão ridículo assim alguém se apaixonar? Olha, baseado nos sintomas tradicionais que andei desenvolvendo nas últimas semanas, eu não usaria exatamente a palavra “ridículo”, a não ser que você ache todos os hospitalizados uns patéticos fingidos. Mas quando as coisas não rolam, quando não há qualquer sinal de correspondência, a sensação é mais ou menos um saco, como um resfriado mal curado. Você não consegue ir a lugar algum sem espirrar sua doença na cara dos outros. Não há antibióticos contra a paixão.


Gabito Nunes

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Necessidade



A gente se perde. Por medo, por correria no dia-a-dia. Se perde por querer alcançar tudo ao mesmo tempo, com ansiedade. Acontece com quem tem sonhos, com quem tem planos, com quem não tem nada e com quem tem tudo. A rotina esmaga e a gente se perde. A paixão vira amor e a gente se perde. O trabalho que não é exatamente o que você gostaria, ou o local onde você pretendia estar. A carga horária aumentada, em busca de nem sei o quê.
Basta um momento pra entender que na vida, nada é pra sempre, tudo está em movimento o tempo todo. Toda pequena mudança desestabiliza, desarma.
Perder-se, talvez seja necessário. Para reprogramar, priorizar. Perder-se na loucura do dia-a-dia, talvez seja a unia forma de encontrar o que realmente importa. Você.


"Quero te dizer que ter um amor não basta. Assim como ter um corpo em dia não basta. Assim como ser reconhecida no trabalho não basta. Assim como ter um cabelo que não arrepia em dias chuvosos não basta. Assim como realizar todos os sonhos do mundo não basta. E nunca, nunca vai bastar. A gente quer mais, sempre mais. O pouco não contenta. O mais ou menos não convence. O alguma coisa não enche a barriga, o coração, os poros, a vida. Escrevo para você que acha que ter um namorado resolve todos os problemas do mundo. Não se engane, por favor, não se engane. É claro que existe companheirismo, cumplicidade, tesão, amor, amizade, parceria, admiração. É claro que existem todos os prós do mundo. Mas também existe briga, cara feia, troca de farpas e o lado sujo daquilo que a gente sempre quis um dia. Existe a chatice, o egoísmo humano, os defeitos em luzes neon piscando pela cidade. Quero te dizer que muito mais importante que ter alguém é ter paz. Muito mais importante que ter alguém é saber lidar com você mesma. É se gostar, se curtir, se suportar, se superar todo dia. É gostar do que vê e do que não é visível aos olhos. É engolir e sorrir para a própria companhia. Muito mais importante que ter alguém é estar todo dia verdadeiramente apaixonada pelo “alguém” mais importante da sua vida: você mesma."





Clarice Correa

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Los Amorosos

 "Os amorosos calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais perturbador, o mais insuportável.
Os amorosos buscam,
os amorosos são os que abandonam,
são os que modificam, os que esquecem.
Seu coração lhes diz que nunca encontrarão,
não encontram, buscam.
Os amorosos andam como loucos
porque estão sós, sós, sós,
entregando-se, doando-se a cada instante,
chorando porque não salvam o amor.
Preocupa-lhes o amor. Os amorosos
vivem para o dia, não podem fazer mais, não sabem.
Sempre estão indo,
sempre, a alguma parte.
Esperam,
não esperam nada, mas esperam.
Sabem que nunca hão de encontrar.
O amor é o adiamento eterno,
sempre o passo seguinte, o outro, o outro.
Os amorosos são os insaciáveis,
os que sempre - felizmente - hão de estar sozinhos..."


Tradução livre de um trecho do poema "Los amorosos", de Jaime Sabines.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Perdoe-se

E quando o coração estiver apertado;
Quando a tristeza parecer maior do que possamos suportar;
Quando o dia nos fizer inverno;
Quando a auto estima quiser grifar as culpas;

PERDOE-SE, respire e ame.

Quem não é capaz de se perdoar, não é capaz de perdoar os outros.
Sem perdão não há tranquilidade. Somos capazes de seguir com saúde se o perdão estiver em persistente exercício. Fazemos parte de uma mesma estrada. Cada qual em seu momento.
Permita-se viver.

A humildade vem da consciência e perdão aos próprios erros, para nos humanizar e nos ajudar a perdoar os erros alheios.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Se eu ficar

"Um dia você pode de repente passar sem me ver e eu vou querer abanar, gritar seu nome, bater meu carro num poste ou ultrapassar o sinal vermelho como uma louca só para chamar a sua atenção.
Você vai passar como se nunca tivéssemos nos visto, dividido a mesma cama, o mesmo café, os mesmos talheres e toalhas. Como se o ar fosse mais pesado que nós e a nossa história, uma história que naquele ponto você já nem lembrará mais.
E o que me dá medo é que não quero virar um borrão, um simples sopro na sua vida. Uma imagem distorcida na sua memória. Pelo menos não se esqueça a cor dos meus olhos ou a minha mania de sentar com as pernas cruzadas como índio no café da manhã.
Lembre-se alguma coisa além do meu nome.
Eu não quero ter que estragar um carro só para ver se você ainda lembra de mim. Eu não quero que a gente se perca para descobrirmos que nunca nos achamos; vai ser triste, e somente eu vou saber. Você vai passar e só… O problema é que eu sempre vou ficar.

_CAMILA COSTA

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Constatação

" Eu não vou me desculpar pelo lado ruim, nem me perguntar por quantas vezes você pensou em ir embora antes de fazê-lo. Não vou me ater aos rabiscos, aos malfeitos, às partes tortas e a nenhuma dessas coisas que passam pela nossa cabeça assim que somos abandonados. Não vou te culpar por alguma crise de choro ou por alguma cirrose futura, nem espalhar aos quatro ventos alguma história que me torne vítima e tiranize você. Eu vou sentir sua falta. Aliás, eu já sinto. Sinto que eu deixei escapar a minha melhor chance de ser feliz – e isso não é nenhum estado depressivo que se agrava e se repele automaticamente depois de algum tempo. É conformismo. Constatação. Daquelas verdades inconvenientes que são pregadas na parede do quarto feito papel de parede que a gente não escolheu. E nem adianta tirar porque a pintura vai descascar e esfarelar tudo. Vai sujar o chão. Adeus serve pra gente reconhecer no rosto de quem vai embora alguma história da qual tenhamos participado. Os traços do outro vão sempre contar um pouco da gente – principalmente quando a gente ajuda a carregar as caixas, com o coração na mão. E me olhou com tanto carinho antes de me beijar a testa – e eu sei que isso significou muito pra você. Que você foi embora com o coração dilacerado. Mas agora você vai embora quebrada, e eu também. Cada caco reunido com o pouco de força que a gente ainda tinha. Você foi a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo – e só Deus sabe como eu amei você. Do meu jeito, mas amei. Com pretensões, com modos de indicativo e imperativo, sem modo algum, com gentileza e cadeiras puxadas pra você cair diretamente nos meus braços. Amor não se acaba, morena. Amor fica intacto no espaço e no tempo. A gente é que muda e faz dele fantasia. Abstração. O factual continua com a vida, mas o amor ficou guardado entre o dia em que você me disse que não entendia nada disso de amor, e o dia em que me deu Adeus. Suspenso no ar. Como se ele desacreditasse piamente naquele vocabulário extenso que englobou a nossa despedida.


_Daniel Bovolento

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Coragem



Sincero, diga, acabou. Fale que não há interesse, sussurre sobre o fim do amor. Grite a infelicidade, seus braços não querem envolver os dela. Machuque, tome uma atitude, afinal, isso tudo cansa. Corda bamba cansa. Angustia diária também. Sonhos absurdos, insegurança, tudo isso, cansa. Mas do que cansar, dói. Coragem homem, coragem!


E ela que só queria um amor quentinho....

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Auto - proteção

Nem faço muita questão que as pessoas me conheçam a fundo. Tem gente que não merece o nosso coração aberto. Certas pessoas não precisam conhecer nossa alma. Porque elas nem vão saber o que fazer com tanta informação. Tem gente ruim no mundo, já me convenci disso. Espero que você entenda isso também. E que não sofra tanto ao constatar que nem todo mundo quer o seu bem. Algumas pessoas sentem prazer em perturbar os outros. O que ganham em troca? Não sei. E nem quero descobrir.


(Clarissa Corrêa)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Cometa bobagens

"Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta. Cometa bobagens. Não compre manual para criar os filhos, para prender o gozo, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não suporta mais não ser incomodado. Use roupas com alguma lembrança. Use a memória das roupas mais do que as próprias roupas. Desista da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem. Procure falar o que não vem à cabeça. Cantarolar uma música ainda sem letra. Deixe varrerem seus pés, case sem namorar, namore sem casar. Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar. Leve uma árvore para passear. Chore nos filmes babacas, durma nos filmes sérios. Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras. Não diga “eu sei, eu sei”, quando nem ouviu direito. Almoce sozinho para sentir saudades do que não foi servido em sua vida. Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para ser os outros em você. Transforme o sapato em um barco, ponha-o na água com a sua foto dentro. Não arrume a casa na segunda-feira. Não sofra com o fim do domingo. Alterne a respiração com um beijo. Volte tarde. Dispense o casaco para se gripar. Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto. Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. Não chore para chantagear. Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal. Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade."

- Carpinejar.   

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Se um dia seremos inteiros



E te imagino em poses e sorrisos, voz grave e cabelos desgrenhados, preso nas minhas fantasias mais loucas e movimentadas. Numa delas sou um bichinho invisível, com asas, que adentra tua casa e te observa em segredo. Faço o contorno do teu corpo todo com os olhos, parada contra a parede do teu quarto, imóvel, enquanto tu te atiras na cama. Cansado. Tu olhas para o teto imaginando mil coisas, memórias, compromissos, desejos, saudades. Te fito com dor. A luz do abajur faz sombra na tua pilha de livros, que folheei um dia e quis pedir emprestado mesmo sabendo que não havia intimidade para pedidos. Por razões que desconheço, nossas aproximações foram sempre pela metade. Interrompidas. Um passo para a frente e cem para trás. Retrocessos. Descaminhos. Procuro sinais de algum amor teu. Vestígios de noites passadas. Tu não me vês, estou incógnita a te observar. Como sempre estive, olhando pelas janelas, de longe, coração apertado. Nós poderíamos ser amigos e trocar confidências. Assistiríamos a filmes, taça de vinho nas mãos, e tu me detalharias as tuas paixões e desatinos. Nós poderíamos ser amantes que bebem champanhe pela manhã aos beijos num hotel em Paris. Caminharíamos pela beira do Sena, e eu te olharia atenta, numa tentativa indisfarçável de gravar o momento e guardá-lo comigo até o fim dos meus dias. Ou poderíamos ser apenas o que somos, duas pessoas com uma ligação estranha, sutilezas e asperezas subentendidas, possibilidades de surpresas boas. Ou não. Difícil saber. Bato minhas asas em retirada. Tu dormes, e nos teus sonhos mais secretos, não posso entrar. Embora queira. À distância, permaneço te contemplando. E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro. Porque tu és o único que habita a minha solidão.


Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Você

"Que palavra é você? Das mais bonitas às mais doloridas, não encontro a que lhe caiba. Preciso de uma palavra que lhe descreva, de uma palavra que lhe pertença. Preciso de uma palavra insone, de uma palavra que silencie. Preciso de uma palavra que seja fome, mas que também seja afeto. Preciso de uma palavra que morda, mas que também que sopre. Preciso de uma palavra que não se deixe levar por meus pronomes possessivos, mas que ainda assim, seja minha."
Briza M.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Regências


de vez em quando, mudar algumas regências verbais (aliás, a própria palavra regência deveria ser mudada, já que o verbo não é o rei das palavras): libertar-se em e não libertar-se de; viajar algo e não viajar em ou por algo; apaixonar alguém e não apaixonar-se por alguém; sonhar algo e não sonhar com algo; você me gosta, querendo dizer que eu gosto de você, como no francês ou no espanhol (tu me plais, esto me gusta); você me falta, querendo dizer que eu sinto sua falta, como em francês (tu me manque) e, finalmente, e sem vergonha, deslocar alguns pronomes repressores: nada de "eu o amo". já que é para dizer, digamos logo: "eu amo ele".

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

cansaço

"Eu quase ouvi sua voz me pedindo para voltar. Quase. Eu vi seus lábios, seu rosto sujo, sua barba, seus dedos, seus olhos e quase ouvi isso tudo pedindo a minha volta. Mas você não pediu. Você engoliu a fumaça e a cuspiu, longe de mim. Você apertou a mão contra o jeans, puxou a jaqueta, mudou a direção do desejo, mas não do olhar. E eu pensei em pedir também. Pedir alguma coisa, alguma ação, qualquer coisa. Pedir que você me segurasse forte, beijasse meu corpo, me prendesse contra a parede, tirasse a minha roupa. Pedir para que puxasse brutalmente meus cabelos, segurasse as minhas pernas e me fizesse arfar. Você olhou para o meu rosto cansado, quase nu, mas não tentou se desfazer do resto de máscara. Eu parei de te olhar, murmurei alguma coisa, mexi no meu cabelo. Mas você não me pediu para voltar. Você não tirou aquele resto de máscara, não pousou a mão sobre o meu rosto. Não houve sexo, nem revelações. Mantive mil verdades guardadas em mim, exatamente como você. Só precisávamos de uma verdade revelada. Mas você não me pediu para voltar."

e entao eu fui embora....

— (a-u-e)



Porque não havia mais nada a ser dito e nenhum tinha mais a certeza de que queria pedir pro outro voltar. Porque quando o desgaste é tanto e tão grande as vontades são suprimidas e o que expressa é somente o cansaço. Cru. De insistir em algo que não faz mais sentido.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Você têm medo de que?

"Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. (...) Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.

Fabricio Carpinejar


sábado, 27 de janeiro de 2018

Quase amor


Quase amores não existem. E não existem mesmo. Mas existem. Quase amor é aquele ensejo de romance que surgiu com sabor de sorvete de baunilha. Você foi dar uma colherada com gosto e SPLASH! Ao levar o prazer até a boca, o doce escorreu e espatifou, melecando sua calça jeans. Todo mundo passa por isso, quer queira, quer não. Histórias de quase amor não lotam pré-estreias em Los Angeles, mas na vida sem bilheterias goleiam impiedosamente os contos de amor concreto. Um amor que não passa do primeiro beijo porque o cara é noivo, é um quase amor. Um romance que não chegou no sexo, pois uma das partes embarcou com urgência para Londres sem aviso prévio, é quase amor também. Uns duram cinco anos, outros cinco meses. Raros, cinco dias. Contudo – de fato e amargamente – quase amores se dão como formigas em pote de mel. Por isso quase amores existem e não existem. Talvez não tivera beijo, ou não houve sexo, quiçá um abraço de urso. Quase amores são cheios da falta de café na cama, juras de amor eterno, cena de ciúme, mordida no queixo, lutinha no carpete, banho de espuma, briga na casa da sogra, despedida em rodoviária, confusão de chinelos, chimarrão no meio-fio, troca de alianças, beijo na testa, orgasmo com choro e velhice compartilhada. E se engana quem pensa que os quase amores são aqueles impossíveis ou proibidos, do tipo Janet Dailey. Amores por um triz têm motivos circunstanciais. Amor que é proibido, mas os dois se correspondem, já é amor completo, mesmo que imperfeito. Quase amor é quando um dos lados se doa pela metade, quando tanto. Aí é pretérito. Bem mais que imperfeito. Quase amor é um lugar estranho e ao mesmo tempo familiar. Aconchegante e inóspito. Enérgico e gélido. É como quando você tem um déjà vu ao entrar numa rua ladrilhada dessas de cidade histórica. Um lugar aonde você jamais esteve, porém consulta sua memória rígida buscando reconhecer árvores, calçadas e telhados. Uma saudade abstrata pressiona o peito. E quase dói.


Gabito Nunes





Mas na verdade dói sim.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

the queen of something new

"Tem sorriso sobrando no mundo. Tem amor pedindo abrigo. Tem coração vazio, esperando um hóspede pra trazer ainda mais sorrisos. Tem borboletas sem estômagos pra morar. Tem páginas em branco esperando histórias lindas pra contar. Tem boas lembranças esperando pra existir. Tem poetas com sonhos pra escrever. Tem as coisas simples que não viram notícia no jornal, mas se eternizam na mente de quem sabe viver o bonito da vida. Porque se eu tropeço nas coisas feias, as coisas lindas me levantam e me fortalecem. E me enchem de vontade de continuar andando. Acreditando. E seguir adoçando o verbo viver."

_Karla Tabalipa.






















 I’ll take the night but I want the morning, I want the morning. I’ll dream tonight but I want the morning, I want the morning. I know your eyes but I want the morning, I want the morning. We were sitting by the riverside, there was no one but me and you. You were looking like the universe, I was watching you the whole goddamn way through. We talk on the phone oh but I don’t know what I can say anymore, only a sound for you. In some other dream, oh don’t you wanna be the queen of something new? In some other dream, I do. Call it obscene, oh but there has never been another one quite like you. Somebody tell me it is true.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Ainda estava lá

Nunca pensei um dia chegar. E te ouvir dizer:
- Não é por mal, mas vou te fazer chorar. 

Hoje vou te fazer chorar.
 

Não tenho muito tempo. Tenho medo de ser um só. Tenho medo de ser só um. Alguém pra se lembrar.
Faz um tempo eu quis fazer uma canção pra você viver mais. 

Deixei que tudo desaparecesse e perto do fim não pude mais encontrar. 

O amor ainda estava lá.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Amoraterapia


"Não importa onde você parou ou em que momento da vida você cansou. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo. É renovar as esperanças. E eu pergunto: sofreu muito nesse período? Foi a dor do aprendizado... Chorou muito? Foi a limpeza da alma... Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las... Acreditou que tudo estava perdido? Era o início da tua melhora...
Pois é... agora é hora de reiniciar, de encontrar prazer nas coisas simples... Um corte de cabelo, um novo curso ou aquele velho desejo de aprender a pintar, desenhar, dominar o computador. Olha quantos desafios, quantas coisas novas te esperando! Está se sentindo sozinho? Besteira, tem tanta gente que você afastou com o seu período de isolamento. Tem tanta gente esperando apenas um sorriso para chegar perto de você.
Recomeçar!! Hoje é um bom dia para começar novos desafios. Onde você quer chegar? Sonhe alto! Queira o melhor do melhor! Pensando assim, trazemos aquele que desejamos. Se pensarmos pequeno, coisas pequenas teremos. Tire o dia para uma faxina mental! Jogue fora tudo que te prende ao passado: fotos, roupas, papel de bala, ingressos de cinema, bilhetes de viagens e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados. Esvazie seu coração! Fique pronto para a vida, para um novo amor. Lembre-se: somos apaixonáveis, somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes. Afinal de contas, nós somos o amor. "

Carlos Drummond de Andrade





Como foi que voce disse? Ah, lembrei: amoraterapia. Pratique amoraterapia. Ame.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Quinto Andar



"Quando eu olhei pra cima e não te vi, não sabia o que fazer, fui contar praquele estranho que eu gostava de você. Ai, ai, será que foi assim? Que foi o tempo que tirou você de mim? E ele num momento hesitou, mas depois não resistiu, me contou que mil balões voando foi o que ele viu. Pensei: não é possível que eu não tenha reparado. Eu devo estar completamente avoada. Dei quase cinco passos e parei, não podia andar pra trás, mas confesso não cabia enxergar tantos sinais. Alô, eu sei, se chega até aqui, tão no limite não dá mais pra desistir. Amor, por que eu te chamo assim? Se com certeza você nem lembra de mim…"  —  Tiê, Quinto Andar

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Expectativas

Não reprime nem me abafa,
Isso não cabe nesse caso
Não prende em acordos, não faz ligações,
Não embaça
Não precise tanto em mim, não me conte como certo.
O incerto é mais real, é mais próximo e perturbante
Vai que tudo troca, muda e vira,
Isso acontece o tempo todo.

Expectativas é um negócio desleal mesmo. A música tá certa, bem por fim.



domingo, 21 de janeiro de 2018

Keep your heart strong

Preciso muito que alguma coisa muito muito boa aconteça na minha vida. Alguma coisa, alguma pessoa. Acho que tenho medo de não conseguir deixar que o passado seja passado, de aceitar verdades pela metade, de viver de ilusão. Eu preciso muito muito deixar acontecer o momento da renovação, trocar de pele, mudar de cor. Tenho sentido necessidades do novo, não importa o quê, mas que seja novo, nem que sejam os problemas. Preciso deixar a casa vazia para receber a nova mobília. Fazer a faxina da mente, da alma, do corpo e do coração. Demolir as ruínas e construir qualquer coisa nova, quem sabe um castelo.

 _Caio Fernando Abreu

 Keep your heart strong

sábado, 20 de janeiro de 2018

Sobre a curva do teu riso fazendo curva no meu

 Quando eu te der a mão você vai me ler inteira. E não tenho medo de ser água rasa pra você, não pra você. Porque teu olho cheio de estrelas e orvalho não me julga. Você me abraça inteira, não poda meu drama, não limita minha melancolia, não barra minha loucura. Você me aceita monstro porque a nós coube o segredo de ser, e a consciência ferina dessa existência. Mas não quero falar de filosofia agora. Quero te contar que você me inspira poesia e facas, cigarros e asas. Quero consertar aquilo que disse sobre a inutilidade de existir, eu esbarrei em você meu bem, tinha que ser assim. E rimo, sorrindo. E depois choro, você é grande demais pra caber no papel, na fotografia, nos meus braços pequenos. Você se abraça de leve, com preguiça, querendo se deixar cair, mas eu quero te apertar forte e te levar pro mar. Pra ver o sol nascer e acreditar que nasce por um motivo. Metafísico, biológico, místico, ou somente - lá vem minha rima fraca, boba, e tua - teu sorriso."


Sobre a curva do teu riso fazendo curva no meu. Clara D

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Recomeço

"A saudade simplesmente foi embora. Passou. Não existe mais. O que antes rendia-me inúmeras lágrimas, hoje não me faz chorar. A tua ausência não me deixa mais tão vazia, e o teu cheiro não está mais em mim. Nossas fotografias empoeiradas na estante, ainda lutavam e tentavam trazer as lembranças de volta à tona, porém nada é como antes. Você mudou, e junto disso fui obrigada a deixar de me importar tanto contigo, e com tudo o que um dia fomos, ou vivemos. Mas é assim. Sempre é. A gente sempre se decepciona com quem menos espera. E as vezes quem achamos que vai nos derrubar, é quem nos levanta quando todos vão embora. Nós nos enganamos. Assim como me enganei em relação a você. Pensei, e cheguei a acreditar que dessa vez seria diferente, e que você havia chegado pra ficar. Normal, a vida sempre dá um jeito de nos derrubar. Cabe a nós sabermos recomeçar." 


- P. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

E mesmo assim, queria te contar

Como dois estranhos, cada um na sua estrada, nos deparamos, numa esquina, num lugar comum. E aí? quais são seus planos? Eu até que tenho vários. Se me acompanhar, no caminho eu possso te contar. E mesmo assim, queria te perguntar, se você tem ai contigo alguma coisa pra me dar, se tem espaço de sobra no seu coração. Quer levar minha bagagem ou não? E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem. E você vai me ensinar as suas verdades. E se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio. De dia, vou me mostrar de longe. De noite, você verá de perto. O certo e o incerto, a gente vai saber. E mesmo assim, queria te contar que eu talvez tenha aqui comigo, eu tenho alguma coisa pra te dar. Tem espaço de sobra no meu coração. Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Eu não gosto mais de você

Olha, eu não gosto de você. Pare de me procurar ou tentar chamar minha atenção. Eu poderia dizer politicagens como “o problema sou eu” ou “nós podemos ser amigos, se você quiser” ou “não é nada pessoal”, mas eu estaria apenas vestindo uma luva de veludo para te empurrar pra longe de mim.  Eu não gostei de você, e é extremamente pessoal. Sai do meu pé. Eu sei que nós saímos duas ou três vezes, mas é o que as pessoas costumam fazer quando estão procurando alguém pra se enroscar no inverno que vem, ou para todos os frios que vierem. Só que não adianta me telefonar trinta vezes ou vociferar frases de parachoque na minha caixa postal, apenas não deu liga. Dois ou três encontros não querem dizer nada, não comprometem ninguém, a não ser que você more na Arábia Saudita ou coisa assim. A boa notícia (ou má, ainda não sei) é que moramos numa metrópole, cheia de gente diferente indo e vindo, ofertas, escolhas, opções, ninguém mais permanece com alguém se não for por amor, ou sei lá, por algo mais. Algo que não aconteceu pra nós, poxa. O ruim desse jogo é que ninguém sabe direito as regras, não há uma assembleia ou coisa parecida, onde os praticantes decidem o que pode e o que não pode antes de estar valendo. Eu posso pôr o braço sobre seu ombro no cinema e depois decidir que não gostei de você? Eu posso ter um estilo de vida parecido, gostar basicamente do mesmo tipo de passeios e canções, e mesmo assim rejeitar seus telefonemas? Quantos encontros são razoáveis para determinar se isso vai dar em algum lugar ou não? Talvez seja legal organizar uma confederação nacional das pessoas que estão procurando um relacionamento; e pagando mensalidades, receberíamos treinamento específico para saber como lidar. Como ficar. Como seguir em frente. Como superar uma humilhação. Agora fiquei confuso, não é o que fazem as revistas? Ei, só porque eu não gostei de você, isso não significa nada. A minha percepção não resume o que você representa para o resto das milhares de pessoas habilitadas para te querer. Pra ser sincero, eu tenho o gosto muito duvidoso, um pouco esquisito até, incompatível com sua normalidade, seu comportamento e modo padrão de se vestir e pentear o cabelo. Vamos fazer o seguinte. Continue procurando. Sei que eu vou. 


Ótimo texto, do Gabito Nunes.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Sentimentalmente ativos



Na era da geração auto-suficiente ser  sentimentalmente ativo é um privilégio. Na geração em que a aparência vale mais que mil palavras, colocar o coração pra funcionar é quase artigo raro. Ponto para aqueles que “sobreviveram” as atitudes egoístas e que não se venderam a nenhum ato mesquinho. Sorte de quem enche a boca pra dizer o que sente e acende os olhos pra comprovar que é verdade. Graças a esse seleto grupo sentimentalmente ativo, o amor ainda resiste e é praticado em todos os gêneros e de todas as formas. Porque a boa vontade das pessoas até pode ficar inativa, mas aqui, o altruísmo é quem vai comandar."




- Fernanda Gaona




segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Nem eu esperaria

"você nunca esperaria algo assim de mim. eu sempre fui a boa menina que te esperava de pernas cruzadas enquanto você partia. Você sempre foi embora e eu sempre fiquei estática te esperando.
você sempre virou a esquina, correu para outros abraços e eu sempre fiquei sentada no meu canto te esperando. você nunca esperaria isso de mim. eu também não esperava isso de mim. e talvez isso queira dizer alguma coisa. mas o que?
eu ainda não sei."

Paula S.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Está terminando

"Aquela sensação que ela conhece tão bem e você conhece tão bem e todo mundo. Todo mundo conhece tão bem. Aquela sensação, que todo mundo conhece tão bem, de que tá terminando. Eles estão no final, mas não vão causar o fim. Eles estão no final, mas escolheram esperar acabar. Estão no final, não tem muito como salvar. Estão no final e estão vendo isso, um pouquinho a cada dia, com sorrisos sem graça e dezenas de hehehes. E se decidissem só se comunicar por emoticons? Será que ia demorar mais? Aquela sensação de que todo mundo sabe que não adianta ficar parada ou quietinha ali. O final já os achou. Aquela sensação de quem já passou por isso, de quem sabe que vai doer, de quem sabe que vai passar. Demorou, mas aquela sensação chegou. De novo. A sensação - nova, agora - de que a queda vai ser de pé. Desta vez.