Foi há algum tempo que ele me falou isso. Ele
não olhou nos meus olhos, e por isso não viu que as palavras dele
fizeram dos meus olhos uma janela emoldurando a chuva. Me doeu da unha
aos ossos, pelos, cabelos. Me doeu o peito. Eu me vi atravessando a
cidade e me perdendo em ruas escuras às três da manhã em direção ao
apartamento dele. Me vi no apartamento dele, tentando disfarçar o meu
medo daquilo tudo e ouvindo ele corrigir o que eu dizia, porque eu dizia
muita bobagem. Eu me vi chorando na volta, cheia de álcool no sangue,
entrando em todas as ruas do país antes de descobrir que eu estava na
direção contrária da minha casa. Eu me vi chorando em casa, no banho,
limpando o choro. Eu vi a quantidade de vezes que eu atravessei a
cidade, que eu me enfiei no peito dele, na cozinha da casa dele, no
mundo dele. Eu sempre fui sozinha e já havia dito a ele que tenho uma
espécie de pacto com a solidão. Ele talvez não entendeu, talvez deixou
passar, talvez esqueceu. Não me importa. Arre-perder.
Maria Clara Moraes



